sexta-feira, 3 de junho de 2011

Máscara mortuária

Não foi confeccionada em bronze...
Apenas revelada digitalmente em preto e branco.

O quê?
Uma antiga fotografia minha...
Mostrando alguém que não existe mais,
trajado numa moda obsoleta mista
de alegria e resignação.

Vi ali, naquele momento impresso,
um epitáfio rasgado pela
elegia de um sorriso forçoso e falsificado.

Que máscara, essa?
Por que sorrir na hora do registro se isso não equivale
à minha percepção gotejada pelo tempo cujo
veneno aprofunda essas marcas
de meu rosto cansado e sollitário?

Mas um cadáver digno de máscara mortuária nunca poderia vê-la...

Eis a controvérsia. Eu vi.
Vi a sua também.

quarta-feira, 1 de junho de 2011

Sobre não ser vegetariano

Fui pagar alguma conta e um cartaz me chamou a atenção. Tratava-se da foto de um gatinho ensanguentado e abaixo os seguintes dizeres: "HOJE SALVEI UMA VIDA! SEJA VEGETARIANO!".
Confesso que me senti um pouco mal... Seria eu um assassino?
Mas aí pensei "não como carne de gato". E mesmo se comesse, não seria um gato assassinado, apenas um bife.
Estando com a consciência tranquila, sexta-feira após o expediente, fui comigo mesmo curtir uma hora feliz num boteco. Por ironia do destino, eu que não tenho nada de supersticioso, fiquei arrepiado com um gato que cruzou minha reta e proferiu um gutural gemido dos infernos... Mas mesmo assim, adentrei o boteco.
Uma moça me atendeu dizendo "o que vai pedir, gato?"... Por instantes raciocinei se ela estava me elogiando a beleza ou oferendo carne de gato. Arrepiei denovo.
Pedi uma dose de cachaça e uma porção de vaca atolada... Lembrei uma vez lá na roça que fui ajudar desatolar uma vaca boa que caiu no brejo... Aconteceu que de repente cutucaram uma colméia e as abelhas se deliciaram num prato frio de vingança sobre minha carne. Fui parar no hospital.
Mas aí, continuando o "causo", na hora que fui pegar um pedaço da carne, me entusiasmei com uma cena da mulher gato fazendo propaganda de enlatados para felinos domésticos.
A carne, embebida num molho avermelhado típico do prato, respingou gotas dentro da minha dose de cachaça. Fiquei observando que aquelas gotas não se desfizeram no álcool... E por incrível que pareça, elas começaram a orbitar em movimentos elípticos regulares...
Lembrei da curvatura espaço-tempo e do vácuo da singularidade. O efeito horizonte de uma tarde nada vegetariana me permitiu entender como os astros não caem lá de cima...
É porque o vácuo não é vácuo, e sim uma substância com viscosidade.
Entendi ser esse o sinal cósmico pra não deixar de comer uma carninha de vez em quando...

Miau!


Mais um inverno

Nada à frente... Apenas a neblina fria velando vagos faróis turvos e árvores úmidas às vezes vindo.
Meço o tempo pelas luzes e rasgo o asfalto subestimando meus limites. Meu destino está lá, em algum lugar... Tão distante após a curva...
O vidro embaça,
a visão diminui...

Alguém me chama!
Acordo logo sem saber de que lado estou...

Eis a hora de encarar a cidade cinza que nunca dorme,
embora sempre sonhe.

Considero sim a possibilidade da existência do espírito,
embora nenhuma prova evoque convicção suficiente num absoluto cujas regras incendeiem o desejo de tranquilidade em minha consciência.

Mas acelero... Para o destino chegar mais rápido,
embora os caminhos sejam sempre na neblina do meu próprio vazio.

quinta-feira, 28 de abril de 2011

Fragmentos de uma viagem ao futuro

A certeza de que os ciclos se repetem se prova pelo fato de que o “abstrato pressensível” sempre nos persegue… E nos encontra.
Mas o que seria um “abstrato-pressensível”,  senão o próprio espelho do imaginário? Emoção tão real quanto expressão; expressão tão nítda quanto a musculatura em sua dinâmica; movimentos precedidos por circuito elétrico, hardwere, cérebro, mente, pensamento… Imginário, emoção, expressão, comando…
Era um vez um cara que optou por limitar-se ao insosso ser apenas si, e descartou o imaginário. Pretendeu morrer antes da família e antes de construir uma própria. Acreditava que a paz eterna causaria menos danos, e o significado do sacrífício então mudaria o rumo de tantas outras. Mas ele era insignificante egoísta, portanto mal visto por não ter uma família própria, e de nada estatisticamente relevante serviu sua morte, exceto do sofrimento da danação eterna… Por que então não morreu… Embora morto. A sorte trapaceou a vida.
Eis então intersessão entre sensorial e abstrato: o imaginário e sua expressão.

Ser ou não ser...

Mas acontece que daqui oro melhor. (Mas que causação é essa de orar? Talvez nada além da coinidência entre ação e reação….?)
O que não está dito está expresso. Os que optam pela linguagem corporal aderem aos enigmas dos significados da linguagem não verbal; como tatuagens,  ou estilos, que traçam no corpo a história do significado ou, pelo menos, o significado da história no âmbito circinscrito do tempo vivido (mais ou menos vívido).
E as estórias ficaram tão histórias, (depois) que foi após as estórias que as histórias acolheram um significado maior (pois as mentiras também dizem verdades reprimidas). Muito além de ornamento, a linguagem é a pedra atirada que não volta mais. Uma mentira deve ser vista como o desejo do mentiroso que precisa parecer coerente. Mas simultaneamente a mentira pode ser descoberta, e sua incoerência uma prova (da tentação maligna).
A mentira responde aquilo que se gostaria de responder caso a resposta de fato fosse a verdade mentida.
Não sei muito sobre a vida (além da certeza de que ela acaba). Quanto a existir ou não uma realidade transcendental que dá continuidade à coisa, prefiro o silêncio (pois afinal posso estar errado).
Os amigos que me lêem associam comigo o significado dos escritos, mas será que sonham que (talvez) todo esse suposto devaneio não pertença a mim? Mas não cola a questão da mediniudade de espíritos que se apoderam e dizem por mim…
Na incorporação espiritual nada há além de desejos contidos, mas assim sendo, não é menos digna, posto que revela a expressão do contido em si.
A verdade é que remeto ao filosófico tudo que vivo em prática.
Sou apenas um cirurgião-dentista. Sonho em recolocar mais elementos dentários que retirá-los. Deparo regularmente com a linha tênue da dor. E, dentro do que me cabe… Aprendo com infelizes, tais quais como um dia fui.
Reescrevo a expressão de quem se desmembrou em pedaços. Reabilito mutilados. Filosofia é enfeite.
Atuo recompondo estruturas minerais  e tecidos moles.  Não agrado a todos, mas quem a todos agrada?
Mais que fechado ao ato; não só filosofo; atuo.
Mas me pergunto: por que a filosofia e a psicologia não têm páginas em livros de fisiologia?
(???)

Mas o mal tem cara de anjo...

Não é novidade que sou agricultor e pecuarista de proles de  cruzamentos recessivos. Também não é novidade que negocio almas, embora me odeiem por isso.
Orar aos anjos bonitinhos é como se nos rendêssemos aos supostos suaves empréstimos bancários que (...). Negociar com os demônios  é aprender a lidar com seres tão inferiores quanto você e eu. Então vamos começar respeitar…. E parar de tentar negociar pernas de cadeiras com asas de chícaras!!!!
Aconteceu de verdade que alguém do lado de lá deu uma espantada nessa cachorrada confusa que por si vai sem pressa para algum lugar entre o lá e o aqui… Mas deve ser evitada, entretanto absolutamente respeitada.
Como o quê???

Ahn???

Sabem, gentes?
Não existe a ausência, porque se não ela logo seria uma presença. Nem que fosse uma ausência mais presente que a verdadeira presença.
Ausência e presença se referindo ao mesmo objeto não se definem. Então não há! Nem hão de ser…
Logo, ausências por justificarem os não fatos em si, não mais concretas que a palavra que caracteriza uma sequer ausência, de fato deixam clara a essência da ausência mesma.
Logo, há…
Há algo em mim e em não só em mim.
Há algo além de nós por nós, e que tem nome.
A ausência desse nome é nós por nós mesmos ausentes de si.
Mas se o si é o que é…
Logo o si somos nós ausentes de nossas ausências.