terça-feira, 20 de maio de 2014

Negação

É bastante notável que em todas as pessoas que falam em nome do futuro - ou demasiadamente em deus - o sentimento dominante é a saudade de si mesmas. Não falta a consciência de que erraram, ou talvez de que suas vidas falharam... O fato é que sempre atribuem a culpa aos outros. Negam a si mesmas.

quinta-feira, 8 de agosto de 2013

Um chopp

Às vezes fosse descaso do acaso, mas se não acreditado o acaso, fosse tão somente semente de um caso raso, como qualquer um, nem raro e nem comum.
Houve então um sujeito que enquanto dependeu enquanto viveu, fingiu que acreditava, de forma que temia mas não descartava, e questionava experimentando, ou experimentava comedidamente questionando.
Prosperou numa fila, que lembrava uma cáfila cruzando o deserto, e persistia se atendo às amarras. Não bastava ser livre pensador, precisava se comportar de forma a pertencer, para assim além do deserto seu destino alcançar... Até que pudesse autossuficiente e liberto se apresentar, ou bem representar.
Por algum motivo levava consigo uma pedra sabão, um maço e um cinzel. Nem de longe seria escultor, pois a pedra já estava esculpida, faltando apenas lapidar. Mas viveria então uma estética reprodutível, ou algo que dissesse exatamente o que nunca deveria se dizer?
Respeitou a fila, alimentou a cáfila, cruzou o deserto (se é que cruzar o deserto é encontrar água e terra fértil para semear).
Nasceu, cresceu, morreu diversas vezes, uma coisa ou outra entendeu e diversas vezes outras importantes as esqueceu.
Mas um sentimento terrível de repente se apresentava na prontidão de um soldado real que o sustentava: o bem nada seria se um contraponto não o qualificasse. Logo, a imperfeição seria bela, a lagarta também, e um gato sorrindo mais ainda.
Percebeu que não tinha uma coisa sem a outra, e mais ainda: que a pedra que tanto lapidava era igualmente bela e resoluta, embora eminentemente bruta. Ela continha o Todo; o Todo era a forma.
Viveu então um longo tempo de plena lucidez. Tudo era ponderável, mensurável, e da mesma forma que havia pontos sólidos de referência pelo sim e pelo não, havia o incognoscível, o inominado.
E depois de tanto viver convicto dos desígnios do tempo, sustentando vaidades disfarçadas de verdades, as marcas do tempo então agiram... O cabelo caía e as rugas vertiam abaixo enquanto os julgamentos do passado também declinavam pelos tempos modernos. Então assim as coisas não passavam, declinavam...
Dessa forma, aquele velho inconvicto, aparelhado pelos apelos da verdade inconvicta, envelheceu. Assumiu que a unica verdade comum a todos era aquela que habitava nossas células e provia nosso coração. Percebeu não só que tudo passa, mas que a maior força que nos une é gravidade. Num ciclo meio tempo desce, e meio tempo sobe.
Procurou culpa para expiar. Não encontrou. Foi então até lá no fundo do baú, porque é o que acontece quando alguém que esqueceu precisa relembrar.
Interessante é que o passado se guarda abaixo ou no alto, ou no porão ou no sótão.
Lembrou a juventude, o deserto, a maturidade e seus novos critérios. Lembrou dos mistérios insolúveis, e lembrou da insubstancialidade que os desqualificou.
Só não lembrou o passado. Confiou que lembraria o necessário, esqueceria do desnecessário e conservaria o que mais lhe valeria.
Pegou então o maço e o cinzel, e com exímia proeza e verdadeira sensatez finalizou sua escultura delicada em pedra sabão. Era si próprio então desvelado pela mão.
O sim e o não, o certo e o errado, a emoção e a razão, o justo e o injusto: era tudo pela mesma mão no malhete.
E finalmente, com um só golpe resoluto, astuto e objetivo, destruiu sua lapidação trabalhada e tantas vezes interrompida por vários anos além dos anos.
Destruiu a lapidação da pedra bruta, inclusive o tempo restrito a s mesmo.
Não deixou fotografias, nem meias verdades. Deixou vasto patrimônio sem valor algum. Não quis mostrar que nasceu, quis ser numa lápide esquecido. Não cresceu, porque maliciosamente não difundiu sua escultura impura.
Suas ultimas palavras escutadas por ninguém foram: aprenda amar uma pessoa só, pelo mesmo motivo que tantos se odeiam.
Você nasce só e morre só, o resto é só patrimônio.

quinta-feira, 6 de junho de 2013

Experiência

Muitas vezes o que chamamos “experiência” nada mais é que a soma de nossas derrotas. Então, olhamos para frente com o medo de quem já cometeu bastantes equívocos na vida – e não temos coragem de dar o próximo passo.
Neste momento é bom lembrar as palavras de Lord Salisbury: “se você acreditar totalmente nos médicos vai achar que tudo faz mal a saúde. Se acreditar totalmente nos teólogos, vai se convencer que tudo é pecado. Se acreditar totalmente nos militares, concluirá que nada é absolutamente seguro. Para evitar isto, escute seu coração”.

segunda-feira, 27 de maio de 2013

Adeus às Ilusões

Ser ético, ser herói

Ser ético, ser herói

Quem viu o filme Casa da Rússia, com Sean Connery e Michele Pfeiffer? Numa certa altura, entusiasmado, o editor inglês que é representado por Sean Connery diz: “Hoje, para alguém ser uma pessoa decente, precisa ser herói”. É uma frase fortíssima, que muda toda a história que vai acontecer depois – e que por isso mesmo eu não vou contar. Mas quer isso dizer que, hoje, para ser ética, uma pessoa tem que ser heróica? Ficou tão difícil a ética, assim?
É o que ouvimos quase todo dia. Os brasileiros dão muita importância à ética. Dividimos o mundo em gente decente e indecente. Quando algo dá errado, por exemplo uma política pública, automaticamente se pensa em roubalheira, não em incompetência.
Mesmo os bandidos falam em ética. Na cadeia, punem sem piedade quem abusou sexualmente de crianças ou de mulheres. É comum até um criminoso falar na sua “ética”, nos seus valores.
Também, quando tratamos um serviço, é freqüente a pessoa contratada explicar por que ela faz tão bem o seu trabalho e, sobretudo, por que não pratica certas desonestidades que seus colegas (jura ela!) fazem.
Acredite, claro, quem quiser. Mas faz parte do nosso discurso social, da nossa fala com o outro, afirmar: eu sou ético, num mundo em que o resto não o é. Eu sou do bem. O mundo está de pernas para o ar, tudo está errado, mas eu não.
Aqui temos então duas grandes idéias fortes da brasilidade. Aprimeira é que as coisas em geral não andam bem. A economia nos aperta, a sociedade está complicada, até a amizade e o amor estão em crise. Percebemos bem essa devastação e ela nos incomoda. Mas a segunda idéia é que eu, pessoalmente, ajo bem. Sou honesto.
Serei herói? Aqui é que estão as coisas. Boa parte do auto-elogio (eu sou o único decente num mundo de bandidos) é mentira. Basta ver como termina o serviço do profissional que gabou sua honestidade: tão ruim quanto o dos outros, ou mesmo pior. Então, parece que o personagem da Casa da Rússia tem razão: a ética virou artigo raro. Ser ético é mostrar-se capaz de heroísmo.
Vale a pena então irmos, deste filme recente, baseado num livro de John Le Carré, para a tragédia grega Antígone, que Sófocles escreveu no século V antes de Cristo. Penso que toda reflexão sobre a ética deve começar por ela.
Antígone é filha de Édipo. Dois de seus irmãos lutam pelo poder, e ambos morrem. O trono fica então com seu tio, Creonte, que manda enterrar um dos sobrinhos com todas as honras – e deixar o corpo do outro aos abutres. Antígone não aceita isso. Participa do enterro solene de um irmão e depois sepulta, com os ritos religiosos, o outro, o proscrito.
O rei fica furioso. Está convencido de que é uma conspiração contra ele. Manda descobrir quem violou suas ordens. Ao saber que é a sobrinha, tenta poupá-la: se ela negar que foi ela, ou se pedir desculpas, enfim, ele lhe dá todas as saídas – sob uma condição só, de que ela negue o seu ato. Antígone se recusa e é executada.
Essa história é exemplar. Ela mostra que há um conflito latente entre a ética e a lei. Um governante dá ordens. Estas podem ser legítimas ou não. Creonte fez o que não devia, moralmente, mas é ele quem manda. A lei está com ele. Neste caso, o que fazer?
Vou passar a um caso relativamente recente. Um tempo atrás, eu estava na França, quando um homem morreu na calçada, em frente de uma farmácia, sem que ninguém o acudisse. O farmacêutico explicou: se tocasse no outro, se tornaria responsável por ele. Só um médico poderia fazê-lo. Descobriu-se, porém, que bastaria um remédio simples para salvar o rapaz da morte. O que fazer?
Assisti então a um amplo debate. Foi sugerida uma mudança na lei, para que as pessoas pudessem acudir a seus próximos sem serem processadas, quando agissem de boa fé. Também se propôs um sistema de atendimento mais rápido das emergências. Mas quem, a meu ver, resolveu a questão foi um jornalista, que disse mais ou menos o seguinte:
- Se precisarmos de uma lei que autorize as pessoas a agirem humanamente, a socorrerem os outros sem pensar nos castigos e riscos que correm, não estará tudo perdido? Porque nunca as leis vão prever todos os casos. Sempre, para alguém agir bem, de maneira ética, em solidariedade com os outros, haverá um terreno incerto, um espaço que pode até ser ilegal.
- Precisamos de uma lei nos permitindo ser decentes?, continuou ele. Ou deveremos estar preparados para correr os riscos, até mesmo de sermos presos, quando um valor mais alto se erguer, o valor do respeito do outro?
É este o heroísmo de que falava o personagem da Casa da Rússia. É este o heroísmo que Antígone praticou. E ele exige que, às vezes, estejamos dispostos a infringir a própria lei, a desobedecer às regras, quando for em nome de um valor superior. Em nosso mundo, este valor mais elevado pode ser, antes de mais nada, a vida de alguém. Aliás, costuma haver polêmica sobre o chamado “furto por necessidade”, quando um esfomeado furta comida para sobreviver: isso não é um crime.
Mas as coisas podem ir mais longe. Maria Rita Kehl elogiou aqui, na semana passada, o líder dos sem-terra João Pedro Stédile. O que vale mais, a lei de propriedade da terra, que perpetua uma exclusão social enorme, ou o direito das pessoas a viver, e acrescento, a viver dignamente? Do ponto de vista ético, é claro que vale mais o direito à vida digna.
Nem sempre foi assim. Um pregador puritano inglês do século 17, Richard Baxter, tem uma frase horrorosa. Na época, enforcava-se quem roubasse um pedaço de pão. Ele justifica isso: a vida dos pobres, explica, não vale grande coisa, ao passo que o atentado àpropriedade destruiria os fundamentos da própria sociedade.
Não há consenso a este respeito. Uns defendem os sem-terra, outros os atacam. Mas o que quero levantar aqui é algo mais forte: é que a ética e a lei não coincidem necessariamente. Muitas vezes, ser decente exige romper com a lei. Foi assim sob o nazismo e sob todas as formas de ditadura. É assim também quando a desigualdade ou a injustiça impera.
Aí, sim, o ser humano precisa ser heróico. Porque violar a lei, mesmo que seja por um valor moral relevante, significa sofrer as penas da lei. Numa sociedade decente, imagino que o juiz não mandará para a cadeia quem infringiu as normas legais devido a valores morais mais altos, como os que citei. Mas não há garantia nenhuma disso. Pode ser que a pessoa seja punida, mesmo.
E é importante insistir nisso. O que queremos nós: cidadãos obedientes à lei, a qualquer lei, ou sujeitos éticos, decentes? O ideal é juntar as duas coisas. Mas, na educação, devemos apostar na autonomia, isto é, na formação de pessoas que sejam capazes de decidir por si próprias. O que significa que, em casos raros e extremos, elas tenham a coragem de enfrentar o consenso social e suportar as conseqüências de seus atos.
Isso, para terminar, pode fazer de qualquer um de nós um pequeno herói. O heroísmo não está só nas personagens da mitologia grega ou nos super-heróis da TV. Ele pode estar presente quando cada um de nós enfrenta uma pequena prepotência, em nome de um valor mais alto – desde, claro, que arque com os resultados de sua ação e que além disso lembre que é falível e pode estar errado. Mas é desses pequenos heroísmos pessoais que depende a dignidade humana.

Renato Janine Ribeiro
Professor titular de Ética e Filosofia Política na Universidade de São Paulo, na qual se doutorou após defender mestrado na Sorbonne. Tem se dedicado à análise de temas como o caráter teatral da representação política, a idéia de revolução, a democracia, a república, a cultura política brasileira. Entre suas obras destacam-se "A sociedade contra o social: o alto custo da vida pública no Brasil" (2000, Prêmio Jabuti de 2001) e "A universidade e a vida atual - Fellini não via filmes" (2003).

A vida de um pensamento

A vida real de um pensamento dura apenas até ele chegar ao limite das palavras: nesse ponto, ele lapidifica-se, morre, portanto, mas continua indestrutível, tal como os animais e as plantas fósseis dos tempos pré-históricos. Essa realidade momentânea da sua vida também pode ser comparada ao cristal, no instante da cristalização.

Schopenhauer

terça-feira, 21 de maio de 2013

Então...


Enquanto viajavam de ônibus, a velhinha polonesa olhava o rapaz sentado ao seu lado. Em um dado momento, perguntou: “Você é polonês?” O rapaz disse que não. Alguns minutos depois, ela tornou a insis­tir: “Você deve ser polonês”. O rapaz respondeu: “sou sueco”. Mais alguns minutos e a velhinha voltou à carga: “Não precisa esconder: você é polonês”. Querendo colocar um fim à conversa, o rapaz concordou: “Está bem: sou polonês”.
Foi então a vez da velhinha balançar a cabeça, com ar triste: “não parece”.
Diz o jesuíta Anthony Mello sobre esta fábula: primeiro tiramos as nossas conclusões, depois forçamos a barra, até que elas se adaptem a nossa realidade.