sábado, 4 de outubro de 2014

Direção da Vida


Que força é essa que nos empurra para longe do conforto daquilo que é familiar, e nos faz enfrentar desafios, mesmo sabendo que a glória do mundo é transitória? Creio que esse impulso se chama: a busca do sentido e direção da vida. 

Por muitos anos procurei nos livros, na arte, na ciência, nos perigosos ou confortáveis caminhos que percorri, uma resposta definitiva para essa pergunta.

Encontrei muitas. Hoje estou convencido que tal resposta jamais nos será confiada nesta experiência, embora no final, no momento em que estivermos de novo diante do Criador, compreenderemos cada oportunidade que nos foi oferecida. O problema é que se for tarde demais... Não sei.



sexta-feira, 3 de outubro de 2014

Passarinhos

Pássaros sempre foram o fim do meu sono. Pássaros engaiolados além do muro vizinho, ressonando a perspectiva de liberdade... E quem dera fossem libertos para tão longe quisessem voar, e que o silencio logo voltasse silenciar. Mas talvez fosse apenas o estômago pedindo substância, e o cárcere fosse mais seguro que a liberdade.

Levantamos silenciosos, sob o torpor embrigado de nosso sono. E mais um dia assim viria, sob uma dose de café e um pouco de fé depois da água fria.

A lua não despencou, o Sol reapareceu. Mais um dia então se pronunciava, e tudo prosseguia normal em seu curso natural.

A injeção dos motores se misturava ao trânsito caótico, a paciência resvalava entre a intolerância. Dia normal.


Ser uma boa pessoa ou ser do bem


Uma pessoa boa dá antes que lhe peçam.

Quando vêem isto, algumas pessoas de bem comentam: “quem está precisando, pede”.

Mas uma pessoa boa sabe que existe muita gente do bem que não consegue – simplesmente não consegue - pedir ajuda. Por isso ela de forma pragmática vai e ajuda. Uma pessoa boa precisa antes ter sido do bem.

Ao lado de pessoas boas existem pessoas de bem cujos corações estão frágeis, que começam a viver amores e terrores doentios; estão com fome de afeto, e têm vergonha de demonstrar. A pessoa boa então reúne as pessoas de bem, conta histórias que elas gostariam de ouvir - não as que precisam ouvir e estão cansadas de saber - , divide seu ágape, o alimento da alma, e talvez até embriaga-se junto delas. No dia seguinte, todos sentem-se melhor. Ou não, mas valeu a boa intenção, ou deveria valer.

Aqueles que olham a miséria com indiferença são os mais miseráveis. Os miseráveis nem são bons nem do bem.

Saudade de mim

Não está tão ruim como poderia estar, mas nunca está bom. Vida gasta e suada vivendo de brisas, momentos supérfluos... Desentendimentos entre corpo e mente, estímulos e desacatos ao próprio eu. 
Estive em tantos lugares, conheci e senti tantas pessoas... E apenas me sobrou eu mesmo, remendado e com diversas emendas limitantes do meu agir e do meu pensar. 
Às vezes apelo à Deus, às vezes perco a fé... Pois a esperança vindo desse vazio de onde gritamos por socorro pode ser um terrível mal oxidante e asfixiante, do fundo da caixa de pandora.
Não sei mais o que dói ou onde dói, nem de quantos mais comprimidos necessito para descomprimir minhas angústias. Não há mais diagnósticos. Não há remédios. Há apenas a tristeza, e é dela que extraio a força pra me levantar, e às vezes algum sorriso de deboche dessa vida insana, insossa. Sonhos... Melhor os evitar, não há mais em minha face mais ossos a quebrar. 
Hoje e em vários dias de ontem foi assim... Perdido em meus labirintos... Morrendo, de saudade de mim.

terça-feira, 20 de maio de 2014

Negação

É bastante notável que em todas as pessoas que falam em nome do futuro - ou demasiadamente em deus - o sentimento dominante é a saudade de si mesmas. Não falta a consciência de que erraram, ou talvez de que suas vidas falharam... O fato é que sempre atribuem a culpa aos outros. Negam a si mesmas.

quinta-feira, 8 de agosto de 2013

Um chopp

Às vezes fosse descaso do acaso, mas se não acreditado o acaso, fosse tão somente semente de um caso raso, como qualquer um, nem raro e nem comum.
Houve então um sujeito que enquanto dependeu enquanto viveu, fingiu que acreditava, de forma que temia mas não descartava, e questionava experimentando, ou experimentava comedidamente questionando.
Prosperou numa fila, que lembrava uma cáfila cruzando o deserto, e persistia se atendo às amarras. Não bastava ser livre pensador, precisava se comportar de forma a pertencer, para assim além do deserto seu destino alcançar... Até que pudesse autossuficiente e liberto se apresentar, ou bem representar.
Por algum motivo levava consigo uma pedra sabão, um maço e um cinzel. Nem de longe seria escultor, pois a pedra já estava esculpida, faltando apenas lapidar. Mas viveria então uma estética reprodutível, ou algo que dissesse exatamente o que nunca deveria se dizer?
Respeitou a fila, alimentou a cáfila, cruzou o deserto (se é que cruzar o deserto é encontrar água e terra fértil para semear).
Nasceu, cresceu, morreu diversas vezes, uma coisa ou outra entendeu e diversas vezes outras importantes as esqueceu.
Mas um sentimento terrível de repente se apresentava na prontidão de um soldado real que o sustentava: o bem nada seria se um contraponto não o qualificasse. Logo, a imperfeição seria bela, a lagarta também, e um gato sorrindo mais ainda.
Percebeu que não tinha uma coisa sem a outra, e mais ainda: que a pedra que tanto lapidava era igualmente bela e resoluta, embora eminentemente bruta. Ela continha o Todo; o Todo era a forma.
Viveu então um longo tempo de plena lucidez. Tudo era ponderável, mensurável, e da mesma forma que havia pontos sólidos de referência pelo sim e pelo não, havia o incognoscível, o inominado.
E depois de tanto viver convicto dos desígnios do tempo, sustentando vaidades disfarçadas de verdades, as marcas do tempo então agiram... O cabelo caía e as rugas vertiam abaixo enquanto os julgamentos do passado também declinavam pelos tempos modernos. Então assim as coisas não passavam, declinavam...
Dessa forma, aquele velho inconvicto, aparelhado pelos apelos da verdade inconvicta, envelheceu. Assumiu que a unica verdade comum a todos era aquela que habitava nossas células e provia nosso coração. Percebeu não só que tudo passa, mas que a maior força que nos une é gravidade. Num ciclo meio tempo desce, e meio tempo sobe.
Procurou culpa para expiar. Não encontrou. Foi então até lá no fundo do baú, porque é o que acontece quando alguém que esqueceu precisa relembrar.
Interessante é que o passado se guarda abaixo ou no alto, ou no porão ou no sótão.
Lembrou a juventude, o deserto, a maturidade e seus novos critérios. Lembrou dos mistérios insolúveis, e lembrou da insubstancialidade que os desqualificou.
Só não lembrou o passado. Confiou que lembraria o necessário, esqueceria do desnecessário e conservaria o que mais lhe valeria.
Pegou então o maço e o cinzel, e com exímia proeza e verdadeira sensatez finalizou sua escultura delicada em pedra sabão. Era si próprio então desvelado pela mão.
O sim e o não, o certo e o errado, a emoção e a razão, o justo e o injusto: era tudo pela mesma mão no malhete.
E finalmente, com um só golpe resoluto, astuto e objetivo, destruiu sua lapidação trabalhada e tantas vezes interrompida por vários anos além dos anos.
Destruiu a lapidação da pedra bruta, inclusive o tempo restrito a s mesmo.
Não deixou fotografias, nem meias verdades. Deixou vasto patrimônio sem valor algum. Não quis mostrar que nasceu, quis ser numa lápide esquecido. Não cresceu, porque maliciosamente não difundiu sua escultura impura.
Suas ultimas palavras escutadas por ninguém foram: aprenda amar uma pessoa só, pelo mesmo motivo que tantos se odeiam.
Você nasce só e morre só, o resto é só patrimônio.

quinta-feira, 6 de junho de 2013

Experiência

Muitas vezes o que chamamos “experiência” nada mais é que a soma de nossas derrotas. Então, olhamos para frente com o medo de quem já cometeu bastantes equívocos na vida – e não temos coragem de dar o próximo passo.
Neste momento é bom lembrar as palavras de Lord Salisbury: “se você acreditar totalmente nos médicos vai achar que tudo faz mal a saúde. Se acreditar totalmente nos teólogos, vai se convencer que tudo é pecado. Se acreditar totalmente nos militares, concluirá que nada é absolutamente seguro. Para evitar isto, escute seu coração”.